“Eu, Daniel Blake” critica sociedade atual
- Isabelle Taranha

- 16 de jul. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 11 de ago. de 2023
Crítica feita em 24/03/2017
Cineasta relata realidade do Reino Unido por meio de seu novo filme
O filme conta a história do carpinteiro de 59 anos, Daniel Blake, que sofreu um ataque cardíaco e foi proibido pelo médico de voltar a trabalhar. Essa situação faz com que ele recorra ao sistema de benefícios do governo, na qual é obrigado a enfrentar o excesso burocrático. Além disso, o personagem passa por dificuldades por ser analfabeto digital, prejudicado no momento de preencher requerimentos pela internet. Em uma de suas idas ao departamento governamental, conhece Katie, uma mãe solteira de duas crianças, que não possui condições financeiras para se manter e logo ambos constroem uma amizade em torno dos obstáculos colocados em sua volta.
Ken Loach, diretor do filme, é um dos diretores de suma importância e relevância do cinema. Seu objetivo é tratar questões políticas, sociais, com olhar essencialmente humanista. Em seus filmes, retrata minorias oprimidas, personagens simples que buscam seu espaço na sociedade e que lutam pelos seus direitos. Portanto, é considerado um cineasta engajado, que possui a preocupação de mostrar e denunciar a realidade do cotidiano.
Loach utiliza uma linguagem cinematográfica simples, locações verdadeiras, atores profissionais e não profissionais e imagens não muito rebuscadas, com intuito de chamar a atenção para uma estética realista. Além disso, o diretor inglês se interessa em explorar o ser humano comum e, principalmente, dar voz aos menosprezados do sistema.
“Eu, Daniel Blake” venceu dez premiações, dentre elas, a famosa Palma de Ouro no Festival de Cannes, categoria de Melhor Filme na Academia Britânica de Artes do Cinema e Televisão – BAFTA e categoria de Melhor Revelação e Melhor Performance de um Ator em um Filme Independente Britânico no Prêmio de Cinema Independente Britânico – British Independent Film Award.
Em relação a críticas, o drama foi muito bem recebido pelos espectadores. Muitos elogiaram o recado do filme, as questões que aborda e a denúncia por trás do contexto apresentado. As críticas positivas estão classificadas ou com nota máxima ou quase máxima. As pessoas, ainda, estão fazendo paralelos com essa realidade da Inglaterra exposta pelo cineasta com a realidade do seu próprio país, como no caso do Brasil. Esse paralelo envolve os efeitos causados pela crise sobre os trabalhadores e classes menos privilegiadas, como enormes filas por emprego, relação e tratamento dos órgãos governamentais com seus clientes, horas de espera para atendimento, falta de objetividade em atendimentos que são gerenciados pela elevada burocracia, Estado mecanizado e insensível, trabalhador injustiçado, desamparo social, injustiças do capitalismo, entre outros aspectos.
Ao meu ver, “Eu, Daniel Blake” é um filme para nos fazer refletir sobre o que estamos vivenciando em pleno século XXI. Algumas coisas podem passar despercebidas caso não tenhamos um certo tipo de proximidade, qualquer que seja, com a realidade apresentada por Ken Loach. Então, a denúncia feita por ele é fundamental para que possamos ficar mais espertos e alterar esse contexto, tentando inverter a situação imposta para diversas pessoas, que são tratadas com indiferença. É necessário lutar por nossos direitos, ajudar quem precisa, mudar a lógica burocrática. No caso do personagem, o viam como “só mais um” na fila de atendimento e, infelizmente, essa lógica é real.
Além dessas abordagens no âmbito político e social, o cineasta também evidencia valores, como a honestidade, gentileza e dignidade do personagem principal. Mesmo Loach mostrando os males da nossa realidade, não deixa de exibir a bondade em algumas pessoas. A mensagem seria que mesmo vivendo em um mundo severo com pessoas arrogantes, ainda há pessoas com bom coração, capazes de fazer a diferença. A prova disso seria a personagem Ann, uma das atendentes do departamento governamental que tenta ajudar Daniel.



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